Implementação prática da NR-1: os desafios e caminhos do PGR Psicossocial nas empresas
A nova atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde maio de 2025, ampliou de forma significativa as responsabilidades das empresas no campo da saúde mental e dos riscos psicossociais. A partir de agora, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) precisa incluir, de modo sistemático, a identificação, o registro e o acompanhamento desses fatores que afetam diretamente o equilíbrio emocional e o desempenho dos trabalhadores (Ministério do Trabalho, 2025).
Trata-se de um avanço normativo que, embora esperado, impõe novos desafios organizacionais. Afinal, como traduzir em prática a gestão dos riscos mentais — algo intangível, subjetivo e profundamente ligado à cultura da empresa?
O ponto de partida: o que realmente mudou
Em primeiro lugar, é preciso compreender que a NR-1 deixou de tratar apenas de aspectos físicos ou ergonômicos, pois agora exige que as empresas reconheçam e gerenciem os fatores psicossociais como parte do contexto de trabalho. Isso inclui:
-
o excesso de demandas;
-
a falta de autonomia;
-
a ambiguidade de papéis;
-
o assédio moral e sexual;
-
e as relações interpessoais conflituosas.
Segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2024, mais de 60% das empresas no mundo ainda não possuem mecanismos estruturados de prevenção em saúde mental, mesmo reconhecendo o impacto financeiro e produtivo das doenças emocionais (WHO, 2024).
No Brasil, a mudança normativa ocorre em um momento em que cresce o número de afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho. Assim, o cumprimento da NR-1 não é apenas uma obrigação legal: é uma questão de sustentabilidade organizacional.
Mapeamento e diagnóstico: a etapa que exige mais sensibilidade
Estudos recentes, como o de Monteiro e Lima (2025), mostram que a simples aplicação de questionários padronizados, sem contextualização local, tende a gerar resultados superficiais, que não refletem a real dinâmica organizacional (ResearchGate, 2025). Portanto, antes de medir, é necessário compreender o que se quer medir — e isso envolve conhecer a cultura, os valores e até os silêncios presentes no ambiente de trabalho.
Documentar é mais do que cumprir uma obrigação
Contudo, esse processo não deve se resumir a um formulário ou planilha, precisa gerar inteligência organizacional, permitindo que a empresa entenda o que está por trás dos sintomas — e não apenas que registre o problema.
Segundo Mendes e Ferreira (2024), da Universidade de Brasília, as organizações que tratam o PGR como instrumento de gestão contínua, e não apenas como obrigação documental, reduzem em até 30% as reincidências de afastamentos por estresse ocupacional (Scielo Brasil, 2024).
Acompanhamento e cultura: o verdadeiro desafio
Mesmo com um bom diagnóstico e documentação, a implementação prática esbarra na cultura corporativa, sendo comum que empresas resistam em admitir que o próprio ambiente de trabalho possa ser fonte de sofrimento.
A NR-1, contudo, desloca essa responsabilidade para a esfera institucional. Em vista disso, cabe à empresa acompanhar continuamente os riscos mentais, registrar mudanças e ajustar as medidas de prevenção com base nos resultados obtidos.
Em pesquisas recentes da Fundacentro (2025) alertam que o monitoramento contínuo, aliado ao diálogo entre gestores e trabalhadores, é o fator mais determinante para o sucesso do PGR Psicossocial, superando inclusive o investimento financeiro inicial (Fundacentro, 2025). Mas há um ponto que a norma não explica com clareza: como manter o processo vivo sem transformar o cuidado em uma rotina burocrática? É aqui que entra o papel da liderança humanizada e da gestão participativa — dimensões que não se aprendem apenas com treinamentos.
Comentários
Postar um comentário