Adoecimento Mental no Trabalho: O Que Sabemos e Por Que o Problema Está Crescendo no Brasil

 


Nos últimos anos, o tema da saúde mental no trabalho deixou de ser secundário para se tornar uma questão urgente nas organizações brasileiras. Segundo levantamento divulgado pelo Jornal da USP, somente em 2024 foram registrados 472.328 afastamentos por transtornos mentais — o maior número da década. Esse crescimento revela um cenário preocupante, em que cada vez mais trabalhadores adoecem devido às condições de trabalho.

Além disso, conforme aponta o Tribunal Superior do Trabalho (TST), os diagnósticos mais frequentes envolvem depressão, ansiedade e reações a estresse grave, doenças que, embora invisíveis, afetam diretamente o desempenho, o engajamento e a saúde dos colaboradores. Como reforça a UNIDAD – Universidade Federal de São Paulo, esse perfil de adoecimento está relacionado ao ritmo acelerado das empresas, às pressões excessivas por produtividade e às mudanças rápidas no mercado de trabalho.

Por outro lado, é importante destacar que as causas desse adoecimento não são superficiais. De acordo com a Secretaria de Administração (SAD) e novamente o TST, fatores como sobrecarga de funções, assédio moral, insegurança profissional, falta de apoio emocional, jornadas extensas e ausência de reconhecimento são elementos que contribuem significativamente para o desgaste psicológico. Esses fatores, somados, criam ambientes hostis que minam a capacidade emocional do trabalhador ao longo do tempo.

Além disso, como alertam os Serviços e Informações do Governo Federal, os chamados Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT) já figuram como a terceira maior causa de afastamentos laborais no Brasil, evidenciando uma crise que precisa ser tratada como prioridade na gestão de pessoas. O TST também reforça que os ambientes tóxicos intensificam o sofrimento psíquico, gerando impactos que ultrapassam o espaço organizacional e atingem a vida pessoal dos trabalhadores.

Dessa forma, já é possível afirmar com segurança que o sofrimento emocional associado ao trabalho está amplamente documentado. As evidências mostram que a deterioração da saúde mental é um problema crescente, estrutural e que exige respostas urgentes tanto do setor público quanto das empresas privadas.

Por Que Não Há Evidência Clara de Surtos Psicóticos Ligados Diretamente ao Trabalho?

Embora os dados sobre adoecimento emocional estejam bem estabelecidos, ainda há pouca evidência científica que relacione diretamente surtos psicóticos — como alucinações, delírios ou perda de contato com a realidade — às condições de trabalho no Brasil.

Em primeiro lugar, a maior parte dos estudos sobre saúde mental ocupacional concentra-se em condições mais comuns, como depressão, ansiedade, burnout, estresse crônico e transtornos neuróticos. O Portal de Periódicos da UNIRIO, assim como diversas publicações indexadas na SciELO, indica que esses são os temas mais estudados e que a literatura disponível raramente menciona sintomas psicóticos de forma sistemática.

Em segundo lugar, pesquisas sobre saúde ocupacional — como as publicadas nos Cadernos Prodisa e no portal Dobler — tendem a priorizar sintomas como insônia, exaustão, isolamento, perda de motivação e ideação suicida, mas não episódios psicóticos agudos. Isso não significa que esses episódios não ocorram, mas sim que não aparecem nas estatísticas de forma estruturada.

Além disso, a ausência de dados específicos pode ser explicada por fatores como estigma, subnotificação e dificuldade em estabelecer nexo causal entre psicose e ambiente de trabalho. Muitas empresas não registram ou não reconhecem esses casos, e, quando ocorrem, podem ser classificados como problemas de origem pessoal, não ocupacional.

Ademais, é importante lembrar que os surtos psicóticos têm múltiplas causas, que envolvem predisposição genética, histórico de saúde, traumas e aspectos familiares. Portanto, ainda que o ambiente de trabalho possa atuar como gatilho, ele raramente é registrado como causa direta.

Por fim, ao relacionarmos esse cenário com a NR-1, que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho, percebemos que a legislação prevê a prevenção de riscos psicossociais. No entanto, ela não especifica mecanismos para identificar ou registrar episódios psicóticos no contexto ocupacional, o que contribui para a falta de dados consolidados sobre essa forma extrema de adoecimento.

Conclusão

O adoecimento mental no trabalho é um problema real, crescente e amplamente comprovado pelos dados oficiais. Embora não existam evidências robustas que vinculem diretamente surtos psicóticos ao ambiente profissional, isso não diminui a gravidade do cenário. Pelo contrário — reforça a necessidade de aprofundar pesquisas, fortalecer políticas de prevenção e promover ambientes seguros, saudáveis e respeitosos.Para empresas que desejam se manter humanas, produtivas e sustentáveis, cuidar da saúde mental não é mais opcional: é estratégico e indispensável.

Referências Bibliográficas 

BRASIL. Serviços e Informações do Governo Federal. Transtornos mentais relacionados ao trabalho. 2023.

CADERNOS PRODISA. Saúde Mental e Trabalho. Fundação Oswaldo Cruz, 2023.

JORNAL DA USP. Afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Universidade de São Paulo, 2024.

SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO (SAD). Adoecimento Psíquico no Ambiente Organizacional. Governo do Estado de MS, 2023.

TST – Tribunal Superior do Trabalho. Saúde mental no trabalho e ambientes organizacionais tóxicos. Brasília, 2023.

UNIRIO. Portal de Periódicos. Estudos sobre saúde mental ocupacional. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2023.

UNIAD. Universidade de São Paulo. Relatórios sobre transtornos mentais associados ao trabalho. São Paulo, 2024.

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