Sobre Carreira Profissional

 


Mudar de carreira nos anos +30 é desafiador, mas é um bom recomeço quando a escolha faz sentido, de fato, não romantizo e nem vendo uma ideia de que é fácil, não podemos entrar no contexto de uma meritocracia. Sabemos dos desafios e desigualdades sociais existentes em nossa sociedade, o tempo e o capital não são os mesmos para todos, então é importante deixar claro que este texto não é sobre como o desafio é recompensador, nem sempre é.

Dito isso, por muito tempo pensei que a carreira profissional fosse algo fixo, escolher e pronto, muitas histórias são marcadas por mudanças de áreas, mas é importante ressaltar que todos os movimentos feitos muitas vezes tem um ponto em comum: pessoas. Esse é o meu caso, comecei a carreira na licenciatura em História, mestrado em Ciências da Religião, essas formações partiam de uma identificação inicial, à docência no ensino Superior, porém os planos mudaram, e então veio a Gestão de Pessoas. Este último curso foi fundamental para que eu enxergasse mais, além, nas experiências profissionais que partiram dele, compreendi que aquelas questões que antes eu estudava em uma dimensão histórica e cultural também apareciam na experiência singular de cada pessoa.

Durante muito tempo, enxerguei essas etapas como escolhas independentes, quase como se cada uma representasse um novo começo, mas acontece que nunca deixei de caminhar na mesma direção. O ser humano sempre esteve no centro das minhas escolhas. Na História, aprendi que ninguém existe fora do seu tempo. Cada pessoa é atravessada por acontecimentos, culturas, disputas e transformações que ajudam a construir a maneira como ela compreende o mundo. No mestrado em Ciências da Religião, encontrei outra pergunta que sempre me acompanhou: como as pessoas atribuem sentido às suas experiências? Como as crenças, os valores e as culturas influenciam a forma como vivemos?

Mais tarde, em Gestão de Pessoas e no trabalho com recrutamento e seleção, essas perguntas deixaram de ser apenas acadêmicas. Passei a ouvir histórias de vida, acompanhar escolhas profissionais, observar inseguranças, expectativas e mudanças. Percebi que, por trás de cada currículo, havia uma pessoa tentando encontrar seu lugar. Foi também nesse momento que comecei a me deparar com questões relacionadas à saúde mental. Muitas vezes, eu compreendia a importância de acolher quem estava diante de mim, mas também entendia os limites da minha atuação. Respeitar esses limites não me afastou da Psicologia; ao contrário, foi o que me aproximou dela.

Como sujeito que também vive os desafios constantes dessa sociedade, fui paciente e desse lugar entendi que eu podia expandir meu campo profissional mais uma vez, isso mudou minha própria história. Na terapia percebi que nenhuma das minhas formações tinha sido um desvio, todas experiências anteriores de alguma maneira me preparam para viver novamente a faculdade. Não eram caminhos abandonados, eram caminhos que convergiam e essa percepção mudou a narrativa que eu contava para mim mesma.

Deixei de pensar que estava começando do zero e passei a entender que estava dando continuidade a uma pergunta que me acompanha há muitos anos: como nos tornamos quem somos? Talvez seja essa a pergunta que sempre esteve presente em todas as minhas escolhas, mesmo quando eu ainda não conseguia formulá-la com clareza. Hoje, ao iniciar a graduação em Psicologia, não sinto que abandonei minha trajetória anterior, pelo contrário, sinto que ela amadureceu. Cada livro lido, cada pesquisa realizada, cada conversa no ambiente de trabalho, cada encontro com pessoas diferentes ajudou a construir a profissional que desejo ser.

A Psicologia exige estudo, responsabilidade e humildade, mas começo com algo que considero valioso: a consciência de que nenhum conhecimento foi desperdiçado, tudo o que vivi continua presente em mim. Talvez seja isso que a vida faça conosco, enquanto acreditamos estar mudando de direção, ela vai, silenciosamente, amadurecendo perguntas que só compreenderemos muitos anos depois. É com essas perguntas — mais do que com respostas prontas — que quero construir este espaço.

Se este blog falar de Psicologia, de trabalho, de sociedade ou de educação, será sempre a partir da mesma curiosidade que me acompanha desde o início: tentar compreender com mais cuidado, como nos tornamos quem somos e o que nos motiva a mudar.

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